Dois meses...


Olá bebé lindo da mãe!
Faz hoje dois meses que o teu coraçãozinho parou!
Foi um dia tão difícil...
A mãe e o pai foram para a maternidade logo de manhã. Tivemos que esperar pelo final das amniocenteses mas, ali encostadinha ao pai, refugiei-me nos meus sonhos e tentei aproveitar cada bocadinho que ainda tinha contigo, cada bocadinho em que ainda me podias ouvir e sentir. Quis transmitir-te todo o meu amor, dizer-te que estarás sempre no coração da mãe. Aquele momento foi só para ti minha filha.
Depois chamaram-me, o pai não pode ir connosco... Vesti a bata e entrei para o mesmo gabinete onde fizemos a amniocentese, já lá estava a Dra. A. e uma enfermeira, depois chegou uma assistente e mais três médicos, um deles era o Dr. M., foi ele que fez a amniocentese e ainda se lembrava da mãe. Tanta gente, pensei, mas todos queriam assistir. Sabes filhinha, o teu não era um caso vulgar.
Começaram por ligar o ecógrafo e pude ver-te pela ultima vez... depois colocaram um lençol a fazer de barreira e não vi mais nada, apenas senti.
Não foi fácil, todos estavam preocupados, havia tão pouco liquido que tudo se tornou mais complicado.
Para a mãe foi... Foi simplesmente um dos piores dias da minha vida filha, tanto física como psicologicamente. Não consegui conter as lágrimas e elas correram-me pela cara durante todo o processo. Só queria estar enroladinha no meu cantinho agarrada ao teu bonequinho meu amor.
Quando tudo terminou deixei escapar a dor e solucei desesperadamente, em silêncio. Foi o meu momento de desespero, aquele que me permiti, aquele em que o sonho realmente terminou, aquele em que tive a certeza que seria mãe de um anjinho, que se iria juntar às duas estrelinhas que já tinha no céu. Mas eu não queria ser mãe de um anjinho, eu queria a minha Matilde nos meus braços e isso filha, isso nunca pude experimentar, nunca te pude dar um beijo...
Esse foi também o momento, filha, que uma médica escolheu para se chegar ao pé de mim e dizer: "Porque é que está assim? Não tem motivo nenhum para estar assim!"
Doeu tanto meu amor... Não sou violenta mas só me apeteceu dar-lhe um estalo. Quero acreditar que a intenção dela não terá sido má mas faltou-lhe tanta sensibilidade...
Em todos os outros só encontrei carinho e compreensão, souberam entender a minha dor e respeitar o meu tempo. Senti que também não foi fácil para eles, o Dr. M. era a imagem disso, notava-se que estava comovido.
Queriam que ficasse lá internada logo mas eu preferi vir para casa amorzinho, a mana tinha consulta no pediatra e eu queria ir com ela, além disso, em casa sentia que estava mais perto de ti.
Voltaria no dia seguinte, aí sim para ficar internada. Seria nesse dia, a 16 de Abril, por volta das 6 horas da tarde, que tu nasceste anjinho, o nosso anjinho Matilde!

Os Anjos são assim como tu e como eu, a única diferença é que nas costas têm umas asas muito grandes cheias de penas e vivem no céu!

(Carla Antunes)

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