Amizade I


Ultimamente não tenho conseguido deixar de pensar nalgumas coisas que aconteceram naqueles dias tão difíceis, algumas coisas que me levam a pensar na amizade e no que esta significa.
Quando damos, damos de boa vontade com toda a sinceridade, não porque estejamos à espera de algo em troca. No entanto, esperamos saber respeitar e entender determinados momentos e sentimentos e, de certa forma, que o outro tenha essa mesma sensibilidade para connosco.

No dia em que o coração da Matilde parou, aquele que posso definir como um dos dias mais difíceis da minha vida, o último dia em que ainda teria a minha filha dentro de mim, em que só queria chegar a casa e ficar no meu canto agarradinha ao bonequinho dela, nesse dia, esse alguém não teve sensibilidade para respeitar o meu tempo, a minha dor.

- Esta noite... Vê lá se entendes... Não venhas comigo.
- Não te vou deixar sozinho!
- Mas há-de parecer que me dói muito... Há-de parecer que estou a morrer. Tem de ser assim. Não venhas ver, não vale a pena.
- Não te vou deixar sozinho!
Estava preocupado:
- Se te peço isto, também é por causa da serpente. Não quero que ela te morda. As serpentes são más. São capazes de morder as pessoas só porque lhes apetece...
- Não te vou deixar sozinho!
Mas lembrou-se de qualquer coisa que o acalmou:
- Também é verdade que elas já não têm veneno para a segunda mordidela...


(Antoine de Saint-Exupéry: O Principezinho)

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