Metade



Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja para sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Que o espelho reflicta em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Oswaldo Montenegro

Comentários

Boa noite - se calhar até já é noite demais para estar para aqui a comentar blogs, mas estou à espera de alguém sem a qual não consigo dormir direito (perguntas-te porque digo isto). Esse alguém é a minha mãe.
Obrigada por teres este blog. Só caí nele há pouco, de tropeção, mas aterrei em algo fofinho mas consistente: o teu blog.
Às vezes, não dou valor à minha mãe, por tudo o que ela faz pelas suas filhas, mesmo recentemente tendo que aprender a viver sem o seu companheiro, ela continua com força, tem os seus altos e baixos, mas continua sempre lá a apoiar-nos.
Tu pareces ser como ela, uma guerreira que até mesmo quando pensa que está a deixar transparecer que está no fundo e a desistir, continua a dar força aos que a rodeiam, mostrando a humanidade que todos possuímos e raramente assumimos como nossa, mas que não é de todo algo apenas negativo, pois é esta tomada de conhecimento que nos permite ganhar força mais tarde e que dá força aos que nos rodeiam para nos ajudarem e não tenham vergonha de se sentirem humanos, mas sim ganharem força para viver.

Tentarei aqui vir mais vezes.
Tudo de bom!

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Sara
Maria disse…
Sara,
Muito obrigada pelas tuas palavras, deixaste-me sem fala.
És sempre bem-vinda aqui neste cantinho, espero que o visites mais vezes!
bjs grandes