MEDO

Na sequência destes dois últimos postes e não só, uma vez que o aproximar do fim de mais um ciclo também pesa, tenho pensado nesta vontade de mais um filho e nas dificuldades que temos tido.
Sim, eu sei, a idade não ajuda mas não pode ser só isso, a cabeça também conta muito e eu penso que aí está o maior obstáculo, no MEDO!
Depois da primeira perda conheci esse sentimento associado à gravidez, intenso, porque sempre o é quando significa perda, mas que ainda poderia ser escrito com letras pequeninas. Com a segunda esse dito medo cresceu, e de que maneira, mas ainda dentro de níveis "controlados", se isso é possível... A Matilde fez a diferença.
As primeiras 8 semanas demoraram eternidades, sempre à procura do mínimo sintoma, sempre a correr para a casa de banho só para ver se não havia nada mal, nada que não devesse estar lá. Valeram-me as ecografias de 15 em 15 dias, que me permitiam manter a ansiedade minimamente controlada. Às 10 semanas permiti-me descansar um pouco mais, tínhamos passado a barreira das 8 semanas e estava tudo bem. Depois vieram as 12 semanas, tudo continuava como devia e soubemos que íamos  ter mais uma menina. ACREDITEI!! Desta vez tudo estava bem, desta vez tudo ia correr bem e, no final, íamos ter um bebé no colo. Então chegaram as 16 semanas e com elas o inferno, apercebi-me que afinal ainda caminhava sobre o arame e que este, nalgum sitio, tinha quebrado, fiquei literalmente sem chão, perdida.
Sem opções, perante factos inalteráveis, o que nos resta? Apenas procurar "aceitar" aquilo que para nós é inaceitável... Nascem os "porquês" sem resposta mas que teimamos em manter, porque o "aceitar" não significa entender!
Às 21 semanas e 2 dias a Matilde partiu e, com ela, levou grande parte desse acreditar. Deixou o vazio e o MEDO, agora escrito com letras grandes, enormes. O medo de não ter forças para ultrapassar a ansiedade de, agora, 40 semanas de incertezas, o medo de não aguentar outra perda que, quero acreditar com todas as minhas forças, não voltará a acontecer, o medo de não conseguir combater este medo...
Não posso dizer que acredito que vamos conseguir novamente e tudo vai correr bem, mas quero desesperadamente acreditar que sim, que este sonho tem possibilidades de se cumprir e que eu serei capaz de combater o tal medo que não me permite avançar!

Ilustração de Rie Nakajima

Comentários

NuvemM disse…
Como eu te compreendo. Sinto exactamente o mesmo.
Claro que no meu caso não poderei pensar numa gravidez nos próximos tempos. Apesar disso, sinto o mesmo que tu, sinto que tenho de ter um pensamento positivo mas as circunstâncias não permitem que isso aconteça.
Apenas tenho a certeza que se a vida me der mais uma oportunidade eu não a irei desperdiçar apesar de todos os medos e angústias.
Acredita que um dia irá ser possível e que iremos sair com as nossos filhos nos braços porque as nossas Matildes irão ajudar-nos.

Beijos Grandes
Madame Pirulitos disse…
Bebi cada palavra. E ainda hoje fui dar uma palestra onde falava de ajuda terapêutica na perda gestacional.
Quem me dera ter as palavras certas.

Para já deixo-te um grande, grande beijinhos
Maria disse…
Não são fáceis as palavras certas mas, às vezes, basta o estar lá...
A ajuda terapêutica na perda gestacional, tema importante sim, e mais ainda quando é praticamente inexistente.
De qualquer uma das vezes que estive na maternidade, não conheci um único psicólogo, embora digam que existe mas...
Enfim, até às 12 semanas é porque é o 1º trimestre, é normal, não se justifica :S
Depois, depois dizem que dão a conhecer a possibilidade de apoio e cabe à mãe, mais tarde, dirigir-se-lhes a solicita-lo, caso sinta essa necessidade. O pior é que a Matilde tinha 21 semanas e 2 dias, tratou-se de uma IMG, implicou uma decisão, um internamento e um parto (sim, porque já foi considerado parto), e não houve nenhum psicólogo, nem ninguém me deu conhecimento de tal apoio...
Valeu-me, para além da família e dos amigos que estiveram sempre presentes, o apoio da Associação Artémis, especialmente através de duas pessoas fantásticas, que me deram todo o apoio e que fazem agora parte desse pequeno número de amigos especiais!
Gostava de ter assistido à tua palestra...
bjs
Maria disse…
Nuvem M, linda, sim, as nossas Matildes estão lá a olhar por nós e pelos manos que ainda virão :)
Beijinhos grandes
Patrícia disse…
Olá Maria obrigado pela tua disponibilidade há outra maneira de ajudares mas preferia que me contactasses para o meu email patriciacorreiateodoro@hotmail.com

Obrigado mesmo
Anónimo disse…
No passado dia 23 Novembro foi o lançamento do meu livro "Proibido Comparar o luto e a dor de uma perda gestacional".
É um projecto sem fins lucrativos, sendo os direitos de autor para a ajuda de berço.
Cumprimentos
Cristina Costa
https://www.facebook.com/pages/Proibido-Comparar/650444924978279