Em Nome da Terra

E vão sendo horas enfim de descermos ao rio. Amanhã talvez? Hoje. Um dia: Estará uma noite quente, caminharemos de mãos dadas. O anjo não virá, que teria lá que fazer? vamos sós. Não terei medo da tua presença com toda a sua força de me fazer ajoelhar. Olharei o teu corpo na sua transparência incorruptível. Sofrerei em mim a descarga do universo e não gritarei o teu nome. Porque estarás em mim e eu hei-de sabê-lo. A areia brilhará de uma luz pálida, pisá-la-emos devagar a um impulso fortíssimo e lento. Estaremos nus desde o início, sem vergonha anterior. Nudez primitiva, não saberemos. Porque será uma nudez para antes dos deuses nascerem. Então mergulharemos nas águas do rio e deitar-nos-emos na areia. E olharemos o céu limpo e sem estrelas. E acharemos perfeitamente natural, porque a iluminação está em nós. Erguer-nos-emos por fim e eu baixar-me-ei ao rio e trarei água na concha das mãos. E derramá-la-ei imensamente e devagar sobre a tua cabeça. E direi para toda a história futura, na eternidade de nós

- Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
E tu dirás está bem.

(Vergílio Ferreira - Em Nome da Terra)

Sem dúvida um livro fantástico, que continua a encantar-me!

Comentários

Madame Pirulitos disse…
Estou completamente arrepiada.
Li-o no meu primeiro ano em Coimbra.

Foi e continua a ser o MEU livro, o livro que ME escolheu.

Sem palavras.
Maria disse…
Sabes, é-me difícil escolher O Livro,como me é difícil escolher A Música, O Filme... porque há tantos que nos tocam, que nos dizem algo. Mas este é sem dúvida aquele que eu escolheria, se tivesse mesmo que indicar apenas um. E sim, também sinto que ME escolheu.

bjs grandes