Quando outros dizem o que gostávamos de dizer...

Ouvi à minha mãe, mil vezes, «gosto que cá venhas», «tens a tua graça», «nunca serás sexy, mas tens presença» e «tenho uma filha doida, que hei-de fazer?», mas não me lembro de alguma vez lhe ter ouvido «gosto tanto de ti que não podes sequer imaginar». Mesmo assim, nunca duvidei de que era isso que pensava. Nasci sabendo que uma mãe não é a predestinada da enfermaria quinze que expulsa aos berros uma massa ensanguentada, mas uma condição, uma habilitação que se vai ou não merecendo ao longo da vida. Não sei se mereço o estatuto de Filha, não sei se mereço o de Mãe, e não serei eu certamente a outorgar-me. Sei que a  minha mãe foi sempre só mãe, e que eu, desajeitada numas vezes, esforçada noutras, fui amiga quando me quiseram mãe e mãe quando me quiseram amiga, pelo que peço desculpa, neste dia simbólico, por todas as vezes em que me baralhei - a Psicologia, sabem? Engana muito. Não fui uma boa técnica nem nunca me levantei às cinco da manhã para vos aquecer marmitas, e tens toda a razão, meu amor, quando lastimas nunca te ter costurado com as próprias mãos um fato de carnaval, de fada ou de princesa, de pirata ou de super-homem. Não vou dizer que tentei ser a melhor mãe do  Mundo, porque ninguém me deu a receita, os cartões com laços e corações nauseiam-me e sobretudo porque mentiria - distraí-me muitas vezes a tentar arranjar condições para que nada vos faltasse e todas essas coisas parvas de que um filho não quer saber e com toda a razão. Afectivamente dei o litro, mas morrerei sem saber se alguma vez o sentiram. Sei que vos mostrei as estrelas, a diversidade humana, o teatro e a poesia, deus e o demónio, a bondade e o carácter, e, quando este último falhava, patins e telemóveis para passar despercebida. Também nunca me senti apertada e asfxiada por um abraço da minha mãe nem lambuzada por beijos destemperados como aqueles que vos dou e enfadam por vezes. E nunca fui em cantigas:  uma mãe não deve ser santificada só por ter condições anatómicas para vos trazer a este Mundo! Podemos ser as mais abnegadas criaturas desta vida ou as mais cruéis e incapacitantes, ou ambas em simultâneo. Não sei. Sei que uma mãe ou um filho não se deve limitar a sê-lo, importa que o amor chegue ao destino. Não sei se têm recebido esses meus postais, espero ardentemente que sim, pois nunca deixei de pesar os envelopes e de pagar os selos e de mandar-vos um por dia, pelo menos,  de Lisboa, de Sevilha, da Índia ou de todos as aflições que causei e me causaram. Sei, como vocês, que tentar ser boa mãe e boa filha ao mesmo tempo é uma dificuldade tremenda. E, ao fim destes anos todos, não sei se me limitei a ser ou a tentar, e essa dúvida angustia-me. Amar nunca fui suficiente e isso é uma coisa que as mães sabem melhor do que ninguém. Não interessa: amo-vos perdidamente e interesso-me por vocês independentemente dos laços de sangue e não encontro elogio maior para vos fazer neste Dia. Nada espero de vocês a não ser o benefício da dúvida, e, mais do que tudo, forças para se aguentarem em prova. Até já!
Texto de Rita Ferro

Porque achei fantástico, porque me identifico com tanto...

Comentários

Madame Pirulitos disse…
Impossível não nos identificarmos.

Acho que não sou a mãe perfeita. por vezes digo isto com orgulho e outras com pena. Nunca saberei se fui ou não. Não há mães perfeitas, como não há filhos perfeitos ou relações perfeitas.