segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Porque é que as pessoas, logo que crescem, deixam de voar?

1 Todas as crianças olham as pessoas nos olhos porque sabem que, partindo deles, se chega, num instantinho, ao coração. Se o coração das crianças fosse uma casa, teria uma porta colorida. E janelas, de cortinados aos folhos e com sardinheiras debruçadas. Seja como for, o coração das crianças parece uma longa gare, na véspera duma festa. Atravessam-no corrupios de sentimentos que, logo que desaguam, prontamente abalam, de seguida. Visto de lá, o mundo não é bem um lugar onde todos co-habitam, mas um sítio buliçoso, onde se fala e se convive. Onde se trocam abraços. Onde se esboça um ou outro adeus, contrariado. E as lágrimas crepitam, aqui e acolá. E onde, ainda, na hora do regresso, depois de se voar (porque as pessoas, quando se entusiasmam, voam sempre um bocadinho) não faltará uma janela aberta à sua espera. Para voltarem.

 2. Eu sei que voar é uma forma quase enfadonha de falar do que somos capazes quando escorregamos do olhar para o coração. Mas fiquemo-nos por ele. Porque é que as pessoas, logo que crescem, deixam de voar? Eu acho que as pessoas, quando crescem, se tornam um bocadinho sem-abrigo. Porque lhes falta uma janela – entreaberta, que seja – à sua espera. Deixam de acreditar em fadas e em bruxas, mesmo sabendo que elas moram por aí, fora das histórias. E, se se fiam no Pai Natal, é com vergonha. Acham que o coração se torna um órgão cor-de-rosa, esconso, com quatro cavidades. Sem janelas, nem mansardas nem guaritas. A mim, parece-me que as pessoas, quando crescem -, sem saberem porquê - só brincam às escondidas. Não choram no cinema. Deixam de saber como se ri até às lágrimas. E perdem, o jeito - bom e batoteiro - de espreitar as conclusões antes de folhearem qualquer história. Se não se perdem nas histórias, as pessoas desistem de voar. Deixam de ter várias vidas. E, em todas aquelas onde, teimosamente, ainda se barricam, morrem para a vida eterna. Muito, muito antes, do seu entendimento lhes cochichar que já morreram. Parece-me que, quando crescem, as pessoas só voam quando sonham. E isso não é bem voar; é mais dormir. Deixam de saber como é que, partindo dos olhos, se chega, num instantinho, ao coração. Tornam-se amigas do silêncio. Passam a viver resgatando memórias. E, quando é assim, a esperança (que as memórias constroem, peça-a-peça) fica inquinada de saudade. E desperdiçam as outras vidas (para além da sua) que, sempre que estamos disponíveis para voar, não deixam de se pespegar, por perrice, ao pé de nós.

3. Na verdade, as pessoas, quando crescem, confiam pouco umas nas outras. Não falam dos medos nem das iras. Não falam das mágoas nem do «logo se vê» com que dizem «não» devagarinho. Não falam dos seus encantamentos. Nem das vezes em que se sentem patetas (e como isso, quando acontece aos solavancos, sabe a leite de creme queimado na hora). Não falam dos sonhos de que desistiram como se fossem eles, de birrentos, a encurralá-las nos seus gestos. E não falam das poucas vezes em que não cabem em si. Nem de como, sem darem por isso, não são nem audaciosas nem tenazes. As pessoas, quando crescem, dão-se pouco umas às outras. Se as sentimos com o coração desnorteado no seu peito, sossegando-nos para elas, dizem-nos: «não é nada!». Sempre que choram por muitas razões ao mesmo tempo, para simplificar, choram «por nada». E quando se passeiam pelo desejo, de indecisas, falam como se lhes apetecesse… nada. Muitas vezes, as pessoas, quando crescem, não mentem nem falam verdade. Ocultam-na, que é assim uma forma de transformar o silêncio na maior de todas as mentiras.

 4. Suponho que grande parte das pessoas, quando cresce, se considera apenas suportável. E, muito pior, imagino que vivam essa singularidade como se ela fosse um predicado que lhes mereça algum carinho. Suportável – imagino eu– quer dizer que as pessoas se sentem medianamente aceitáveis e que, por isso, ocupam um espaço pequenino nas suas relações. Parece-me que não é muito diferente de se sentirem desajeitadas para voar. Às vezes, parece–me que sofrem duma epidemia complicada a que elas chamam «vida real», que faz com que a beleza que pulula à volta delas lhes pareça misteriosa e insondável. E que é por ela que imaginam que o mundo vai daqueles que se suportam aos outros, que são insuportáveis. Ora, quando as pessoas são um bocadinho insuportáveis, eu gosto delas. Estão entre imaginar que se voa e aprender a voar. Entre não olhar nos olhos e acreditar que, pela mão de alguém, o coração terá janelas. Digamos que não tem nem acrobatas nem gaivotas. Não me interessa não ter um nome para lhes dar. O importante, de verdade, é descobrir que o coração das pessoas, logo que crescem, deixa de voar. E que elas precisam de se perder nas histórias e ter várias vidas para que ele volte a ter uma porta colorida. E janelas, de cortinados aos folhos e com sardinheiras debruçadas.

Eduardo Sá, aqui

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